sábado, 24 de agosto de 2013

São Reis

ENQUANTO PUDE!

Enquanto pude fantasiei o meu desejo
com a minha hipocrisia
Enquanto pude desenhei-te 
fonte da minha imaginação
musa dos meus poemas
carne rasando a minha boca
e tocando a minha alma

Enquanto pude
colei todos os teus pedaços
que juntos com os meus
fizeram das minhas noites
a minha maior agonia
e o meu maior suplício

Imaginei-te serena e incólume
passeando-te nas fronteiras do meu desconhecido

Hoje reconheço que eras demais para mim
Nunca quiseste as mesmas coisas
nunca rimos pelas mesmas coisas
nunca detestámos as mesmas coisas

Fomos fogos fátuos
que depressa ardemos
na fogueira do prazer
na mácula
de quem se atira de cabeça
por algo que deseja muito

Hoje passeio-me sozinho
no meu poema
Não há mais tu para me desassossegares
me fazeres ferver o sangue
me deixares a boca sedenta
de tanta sede
e a carne ao rubro
de tanta fome

Hoje sou apenas eu...
eu..e os meus cacos todos por colar
eu e essa imensidão a que alguém chamou consciência

Hoje sou apenas eu
Eu e essa tua profunda ausência
a martelar dentro de mim
a sugar-me o sangue
a ferir-me a alma

Enquanto pude
fui por dois
amei por dois
quis por dois

Hoje mal me sustento
na minha raiz precocemente podada
e passeio-te nas minhas palavras
como se fosses um jardim acabado de florir!...

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